9 - "Reforma Hospitalar" deixa Guimarães ainda mais desprotegido nos cuidados de saúde



Nota de Imprensa 13/02/2015

Hospital de Guimarães - Centro Hospitalar do Alto Ave (CHAA)
Aplicação da portaria 82/2014 "Reforma Hospitalar" deixa Guimarães ainda mais desprotegido nos cuidados de saúde


O Conselho Regional do Norte da Ordem dos Médicos (CRN), o Sindicato Independente dos Médicos (SIM Norte) e o Sindicato dos Médicos do Norte (SMN/FNAM), em face da situação clínica de caos vivida nas urgências hospitalares, amplamente divulgada pela Comunicação Social, decidiram levar a cabo em 2015 uma avaliação sistemática do funcionamento dos serviços de urgência hospitalares do Norte do País.

Depois de Santa Maria da Feira e Vila Nova de Gaia, a urgência do hospital de Guimarães (CHAA) foi a terceira unidade a ser visitada, na manhã de 13 de Fevereiro de 2015. Foi ainda visitado o serviço de Medicina Interna.

A urgência do hospital de Guimarães está classificada como urgência médico-cirúrgica e serve uma população directa de cerca de 350.000 habitantes.

O hospital tem actualmente 470 camas de internamento (após a abertura em Janeiro de 2015 de mais 30 camas), o que significa, para a área de referência directa, 1,4 camas/1000 habitantes, número claramente inferior à média dos 28 países europeus da OCDE (5,2 camas/1000 habitantes).

Objectivamente foi possível verificar que a urgência do hospital de Guimarães não cumpre alguns critérios exigíveis a uma urgência médico-cirúrgica, nomeadamente:

1. A estrutura física da urgência é inadequada ao correcto exercício da actividade profissional, contribuindo para que nem doentes nem profissionais de saúde sejam tratados com dignidade numa unidade com um elevado nível de degradação dos espaços físicos. Espaços manifestamente reduzidos para o elevado número de pessoas que os utilizam.

No serviço de urgência (SU) existem doentes aguardando transferência em macas (em OBS, insuficiente e com doentes de ambos os sexos no mesmo espaço) para o internamento (numa espera que por vezes se prolonga para além das 24 horas). Não existe uma verdadeira unidade de cuidados intermédios de apoio á Urgência.

Os profissionais de saúde exercem a sua actividade sem as condições de qualidade exigível, situação que é exacerbada nos períodos de maior afluência,

2. O número de médicos que asseguram os serviços básicos na urgência geral é insuficiente no contexto de um SU médico-cirúrgico. Frequentemente a equipa médica responsável pela urgência geral (triagens) funciona com défice de elementos, enquanto no internamento de Medicina faltam oito a dez especialistas de Medicina Interna.

Tem equipas de SU estabilizadas e coordenadas, com recurso esporádico a empresas.

Nas Equipas Médicas da Urgência os Internos dos três primeiros anos são contabilizados como titulares nas escalas o que dá uma enganosa ideia de equipas completas quando não estão.

Neste SU só no período da manhã existe apoio directo de especialista em radiologia. Nos restantes períodos do dia o apoio ao serviço de urgência é assegurado por tele-radiologia (TAC) ou pelo recurso a serviços externos convencionados, situação que os médicos consideram claramente insuficiente (a ausência de ecografia é inaceitável).

3. Nos períodos de maior afluência de doentes ao SU do CHAA, nem o desempenho excepcional dos médicos e de todos os outros profissionais de saúde consegue evitar que os tempos de espera, determinados pela triagem de Manchester, não sejam cumpridos. No caso das pulseiras laranjas, o tempo médio de espera ultrapassa os 40 minutos, enquanto nas pulseiras amarelas ultrapassa as duas horas.
4. A política de encerramento de camas de internamento associada à constituição dos Centros Hospitalares não foi acompanhada pela abertura de unidades de cuidados continuados com o número suficiente de camas e respectivo apoio clínico. O próprio director do serviço de Medicina Interna reconheceu que cerca de 30% dos doentes ali internados não necessitavam de estar internados nos cuidados "agudos".

Esta situação foi agravada com a passagem da gestão do hospital de Fafe para a Misericórdia no final de 2014, levando à perda de 28 camas de internamento alocadas à Medicina Interna.

Já no início deste ano, perante a pressão pública, foram abertas 30 camas no hospital de Guimarães numa área encerrada e degradada. Porém, mesmo aqui, esta medida não foi acompanhada do adequado reforço em profissionais de saúde e equipamentos. Pelo contrário, alguns dos médicos de Medicina Interna que trabalhavam no hospital de Fafe foram dispensados.

Foi ainda solicitado apoio aos Hospitais de Felgueiras, Riba de Ave e Póvoa de Lanhoso mas que estará disponível até ao fim de Fevereiro.

O internamento de Medicina apresenta instalações algo degradadas, com camas muito antigas e algumas camas/macas espalhadas pelos corredores, sem grades de protecção e sem as respectivas campainhas para alertar os profissionais de saúde. Uma situação classificada como "indignidade" para os doentes pelo próprio director do serviço de Medicina Interna e que não foi desmentida pela administração hospitalar, que prefere falar em "camas de transição".

5. Para agravar esta situação, no âmbito da portaria 82/2014, o CHAA corre o risco de perder várias valências médicas, descaracterizando completamente a qualidade assistencial de um Centro Hospitalar de referência para uma numerosa área populacional.

De acordo com a desastrosa portaria (que embora não aplicada, ainda não foi revogada), o CHAA pode perder várias especialidades como Angiologia e Cirurgia Vascular, Cirurgia Plástica e Reconstrutiva, e Imunoalergologia. De resto, de acordo com o mesmo diploma, não estão previstas as especialidades de Dermato-Venereologia, Estomatologia, Obstetrícia, Pedopsiquiatria e Urologia. E ainda podem ser excluídas as especialidades de Cardiologia, Gastrenterologia, Oftalmologia, Oncologia Médica, Otorrinolaringologia e Pneumologia.

O CHAA constitui um pilar essencial do SNS, serve uma população numerosa e carenciada, acolhe algumas áreas de referência da medicina portuguesa, dispõe no seu quadro médico de profissionais altamente competentes e diferenciados, e tem demonstrado ter um espírito de equipa invulgar na defesa dos cuidados de saúde prestados aos doentes, sendo de reconhecer a preocupação da Direcção Clinica e do Conselho de Administração na melhoria da prestação de cuidados à população utilizadora, mau grado a pressão constante para cortes quantas vezes injustificáveis a que estão sujeitos pela tutela.

O CHAA tem que ser rapidamente dotado de todas as condições necessárias que salvaguardem a dignidade das pessoas e a qualidade da medicina. É fundamental que a sua urgência médico-cirúrgica seja melhorada. E que a portaria 82/2014 seja prontamente revogada ou alterada.

O CRN da OM, o SIM Norte e o SMN/FNAM, relevam publicamente a excepcional capacidade de trabalho dos médicos e dos outros profissionais de saúde, que em condições adversas têm tido um comportamento notável no desempenho das suas funções. Graças a eles, e não aos responsáveis políticos, os serviços de urgência e de internamento têm, apesar de tudo, conseguido evitar verdadeiras catástrofes no âmbito da saúde pública.

Mais uma vez reiteramos o nosso total apoio a todos os médicos que diariamente dão o seu melhor contributo para tratar os doentes e defender o serviço público de saúde.

Tal como referido na sequência de visitas anteriores, as três estruturas irão pautar a sua actuação pela defesa da segurança e da dignidade dos doentes, e do seu direito a cuidados de saúde de qualidade, pela defesa da segurança dos médicos e do seu direito a serem tratados com dignidade, pela defesa de condições de trabalho adequadas e exigíveis ao exercício da profissão, independentemente de outras linhas de actuação que sejam tidas como importantes e necessárias, no âmbito das competências especificas de cada estrutura médica.

E tal como temos vindo a afirmar, o ministro da Saúde, enquanto responsável máximo pela definição geral de política de saúde e enquanto detentor de poderes tutelares e de superintendência sobre as administrações, não pode continuar a eximir-se à responsabilidade moral e política pelos acontecimentos graves que têm sido registados nos serviços de urgência e pelas inaceitáveis condições de trabalho com que milhares de profissionais de saúde têm de lidar diariamente.

Porto, 13 de Fevereiro de 2015